Mandacaru

Nome científico: 
Cereus jamacaru DC
Família: 
Cactaceae
Sinonímia científica: 
Acanthocereus horribarbis (Salm-Dyck) Borg, Cereus cauchinii Rebut, Cereus glaucus Salm-Dyck, Piptanthocereus goiasensis F.Ritter, Piptanthocereus jamacaru (DC.) Riccob.
Partes usadas: 
Raiz, casca, parte de dentro do caule
Constituintes (princípios ativos, nutrientes, etc.): 
Terpenos, ácido quínico, quercetina,
Propriedade terapêutica: 
Antioxidante, antidiurético, antibacteriana, antiviral.
Indicação terapêutica: 
Escorbuto, infecções nos rins e no fígado, úlceras, problemas renais, controle do diabetes, mal de Parkinson,

Origem, distribuição

Cereus jamacaru é endêmico da América do Sul, com origem brasileira. Está presente em registros históricos e culturais desde tempos antigos, sendo amplamente utilizado por populações tradicionais do semiárido.

Amplamente distribuído no Nordeste, ocorre também em áreas de Minas Gerais, Goiás, e ocasionalmente no Sudeste, em regiões de cerrado. 

Foi introduzido em outros países da América do Sul e em regiões tropicais ou semiáridas de outros continentes, como na África e Ásia onde, em alguns casos, tornou-se invasor.

Nomes em outros idiomas

  • Inglês : brazilian cactus
  • Francês : cactus brésilien.
  • Alemão : brasilianischer kaktus.
  • Italiano : mandacaru, cactus brasiliano.

Descrição

Mandacaru é uma árvore de crescimento lento, pode atingir idades centenárias e chegar a até 10 metros de altura. Suas folhas são modificadas em longos espinhos amarelos, que conferem resistência às condições adversas do semiárido. O caule é recoberto por uma camada de cera e possui múltiplas faces, semelhantes a um polígono.

As plantas são hermafroditas (ou bissexuadas), ou seja, apresentam flores com órgãos masculinos e femininos no mesmo indivíduo. As flores são grandes, brancas e ocorrem em grande quantidade, abrindo-se apenas à noite e murchando na manhã seguinte. A polinização é realizada principalmente por mariposas da família Sphingidae, embora a planta também possa se autofecundar. A floração ocorre entre os meses de outubro e dezembro, enquanto a frutificação acontece de dezembro a janeiro.

Os frutos são do tipo baga espinhosa comestíveis, com aproximadamente 12 cm de comprimento e 10 cmm de diâmetro. Apresentam mucilagem branca, com inúmeras sementes pretas de sabor adocicado, e uma casca que varia do laranja ao vermelho.

O fruto pode ser usado tanto para alimentação humana quanto animal, tendo um papel ecológico importante na alimentação de pássaros como bem-te-vi (Turdus ruventris) e sabiá (Pitangus sulphuratus) e na recuperação de ambientes degradados.

A palavra mandacaru tem origem na língua tupi e significa “espinhos agrupados danosos” ou “árvore espinhosa”, em referência aos espinhos que cobrem seu caule.
 

Uso popular e medicinal

Diversos estudos comprovam o uso alimentar do mandacaru, o que o caracteriza como uma Planta Alimentícia Não Convencional (PANC), assim como o xique-xique (Pilosocereus gounellei) e outros cactos típicos da Caatinga. Em relação à composição do caule, observam-se, em média: 15,84% de água, 10,72% de proteína bruta, 16,22% de fibra bruta e 10,66% de resíduo mineral.

A planta como um todo é tradicionalmente utilizada com fins medicinais, sendo empregada no combate ao escorbuto, infecções nos rins e no fígado, úlceras, problemas renais e no controle do diabetes.

O mandacaru é especialmente rico em fibras alimentares totais e apresenta uma série de compostos bioativos, como:

  • Terpenos: moléculas orgânicas com propriedades analgésicas e antinociceptivas;

  • Ácido quínico: com ação antioxidante, antibacteriana e antiviral;

  • Quercetina: flavonoide com propriedades anti-inflamatórias e efeito protetor contra o envelhecimento celular.

Além disso, a planta possui atividade antioxidante, atribuída à presença de flavonoides e compostos fenólicos, e contém minerais essenciais como potássio, magnésio e cálcio.

O uso medicinal mais comum do mandacaru está relacionado às suas propriedades antidiuréticas, que contribuem para a redução da retenção de líquidos. Suas raízes são utilizadas no tratamento de cálculos renais e em afecções respiratórias, como bronquites, secreção pulmonar e tosse. O fruto também é empregado no tratamento do escorbuto.

Em estudos com camundongos, a tiramina, presente no caule, demonstrou potencial terapêutico contra o mal de Parkinson, além de apresentar efeito inibitório sobre tumores induzidos.

Diante de tantas propriedades benéficas, o uso medicinal do mandacaru tem se expandido, destacando não apenas suas aplicações terapêuticas, mas também a diversidade de formas de preparo e consumo, conforme detalhado no quadro a seguir.

 Cuidado

Estudos laboratoriais indicam que o extrato bruto do mandacaru não apresenta efeitos cumulativos nem provoca toxicidade progressiva no organismo. No entanto, seus efeitos variam de acordo com a dosagem: em pequenas quantidades, pode atuar como um estimulante, aumentando a atividade do sistema nervoso central; já em doses mais elevadas, pode ter um efeito depressor, levando à sonolência e à lentidão.

É importante destacar que, por se tratar de um cacto, o manuseio do mandacaru exige cautela, a fim de evitar ferimentos provocados por seus espinhos. Além disso, o consumo excessivo pode provocar desconfortos gastrointestinais, como diarreia leve e cólicas, especialmente quando ingerido em grandes quantidades.

 Culinária - Produtos e receitas

O caule do mandacaru contém fécula, que pode ser convertida em farinha utilizada na produção de pães, biscoitos, broas e mingaus voltados à alimentação humana. A fruta também é versátil e dá origem a diversos produtos, como geleias, licores, alimentos liofilizados, cosméticos e até medicamentos com ação antiúlcera.

São apresentadas a seguir algumas receitas que utilizam o mandacaru como ingrediente principal:

  • Torta de mandacaru com calda de umbu. Feita com polpa de mandacaru batida, goma de tapioca, coco ralado e manteiga de garrafa, assada até dourar. É finalizada com uma calda cremosa de umbu, leite condensado e creme de palma, com um toque de canela.
  • Mousse de mandacaru. Sobremesa leve e refrescante preparada com polpa de cacto, leite condensado, creme de leite, mel de cana e frutas cítricas. Servida gelada, é uma opção tropical, nutritiva e diferente.
  • Suco de mandacaru com limão. Bebida que combina a polpa do mandacaru com suco de limão, água gelada e açúcar ou mel. Basta bater tudo no liquidificador e servir com gelo.
  • Geleia de mandacaru. Preparada com polpa de mandacaru batida e coada, açúcar e suco de limão. Deve ser cozida em fogo baixo até atingir a consistência ideal de geleia.
  • Pão com farinha de mandacaru. Pão rústico e nutritivo feito com a adição de farinha de mandacaru, rica em fibras, minerais e antioxidantes. A farinha, obtida a partir do caule desidratado e moído da planta, confere à massa um sabor levemente herbáceo e coloração esverdeada.

 Colaboração

  • Matheus Rios Rosa, graduando em Engenharia Agronômica (USP/ESALQ, 2025).

 Referências

  1. CyTA - Journal of Food (2024). Comparative assessment of nutritional composition, phenolic compounds, antioxidative and antidiabetic properties of pilosocereus gounellei and Cereus Jamacaru: two unexplored cactus fruits from the Brazilian semi-arid. - Acesso em 1 de junho de 2025.
  2. Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais (2023). Mandacaru: da ração à medicina, inspirando a cultura nordestina - Acesso em 1 de junho de 2025.
  3. Innovative Foods (The Future Food Supply, Nutrition and Health, 2022). Physical, nutritional, and bioactive properties of mandacaru cladode flour (Cereus jamacaru): an unconventional food plant from the semi-arid brazilian northeast - Acesso em 1 de junho de 2025

  4. Plant foods for human nutrition (2021). Cereus jamacaru: a promising native brazilian fruit as a source of nutrients and bioactives derived from its pulp and skin - Acesso em 1 de junho de 2025

  5. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA, Bioma Caatinga, 2021). Mandacaru - Acesso em 1 de junho de 2025.
  6. RECIMA21 Revista Científica Multidisciplinar (2021). Uso medicinal do Cereus jamacaru: uma revisão - Acesso em 1 de junho de 2025.
  7. Universidade Federal da Paraíba (Trabalho de Conclusão de Curso, 2019). Biologia floral e reprodutiva de espécies nativas de cactáceas  - Acesso em 1 de junho de 2025
  8. I Congresso Internacional da Diversidade do Semiárido (2016). Características fitoterápicas do Cereus jamacaru: cacto típico da caatinga - Acesso em 1 de junho de 2025 
  9. Ministério da CIência, Tecnologia, Inovação (Instituto Nacional do Semiárido, 2011). Flores da Caatinga - Acesso em 1 de junho de 2025
  10. World Flora Online: Cereus jamacaru - Acesso em 1 de junho de 2025
  11. Imagem: Vitor Paladini (uso gratuito sob a Licença da Unsplash)

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